Especialistas em relações internacionais, geopolítica e tecnologia da informação avaliam que o Brasil pode enfrentar novas tentativas de interferência digital durante as eleições gerais de 2026. As análises consideram o aumento das tensões entre o governo dos Estados Unidos, comandado por Donald Trump, e o Brasil, além da crescente utilização de plataformas digitais em disputas políticas.
Segundo os especialistas ouvidos pela Agência Brasil, as possíveis ações poderiam envolver desde campanhas de manipulação de informações nas redes sociais até operações cibernéticas mais sofisticadas. O pesquisador Reynaldo Aragon, do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, chamou atenção para um memorando assinado por Trump que prevê a ampliação da cooperação entre o governo norte-americano e empresas privadas de tecnologia em determinadas operações cibernéticas.
De acordo com a avaliação apresentada por Aragon, a medida permitiria ações relacionadas à chamada vigilância cibernética e a operações de efeitos cibernéticos. Entre as atividades previstas estão acessos não autorizados a sistemas de informação e ações capazes de provocar manipulação, interrupção, degradação ou destruição de redes e infraestruturas digitais.
O especialista também defendeu que o Brasil amplie sua capacidade própria de infraestrutura tecnológica para reduzir a dependência de sistemas controlados por empresas estrangeiras. Na avaliação dele, eventuais operações digitais poderiam ocorrer de maneira discreta, dificultando a identificação imediata de seus responsáveis.
Redes sociais entram no centro das preocupações
Outro ponto levantado pelos analistas é o poder de alcance das grandes empresas de tecnologia, conhecidas como big techs. O professor e especialista em geopolítica Euclides Vasconcelos afirmou que essas plataformas possuem capacidade de direcionar conteúdos para grupos específicos da população e, dessa forma, influenciar o ambiente de debate político.
Para o especialista, uma eventual interferência não precisaria ocorrer diretamente sobre sistemas eleitorais. A manipulação do ambiente informacional, por meio da disseminação de conteúdos falsos ou da amplificação direcionada de determinados discursos, também poderia afetar a percepção dos eleitores.
Como exemplo do potencial das redes sociais para mobilizar grandes grupos, Vasconcelos citou episódios envolvendo a circulação de informações falsas relacionadas à imigração em Ceuta, enclave espanhol localizado no norte da África.
Tensão entre Brasil e Estados Unidos
As avaliações ocorrem em meio ao aumento das medidas adotadas pelo governo Donald Trump em relação ao Brasil. Entre elas estão o chamado tarifaço sobre produtos brasileiros e o cancelamento de vistos de autoridades brasileiras.
Em julho, o governo brasileiro também adotou medidas relacionadas a funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos, após suspeitas de que eles pretendiam questionar o sistema eleitoral brasileiro.
Para os especialistas ouvidos pela Agência Brasil, o contexto de tensão política e diplomática aumenta a preocupação com possíveis tentativas de interferência no processo eleitoral brasileiro.
Geopolítica e disputa pela América Latina
Euclides Vasconcelos também relacionou as preocupações com uma nova estratégia de segurança dos Estados Unidos para a América Latina. Segundo ele, a política externa norte-americana busca ampliar sua influência sobre os países do continente.
Na avaliação apresentada pelo especialista, o Brasil ocupa uma posição estratégica nesse cenário devido ao tamanho de sua economia, população e influência regional. Ele também citou episódios recentes envolvendo outros países latino-americanos como parte de um contexto mais amplo de disputa geopolítica.
Apesar dos alertas apresentados pelos especialistas, eventuais ações de interferência nas eleições brasileiras dependeriam de comprovação por meio de investigações e evidências. As declarações citadas na análise representam avaliações dos especialistas ouvidos pela Agência Brasil e não comprovam, por si só, a existência de uma operação estrangeira em andamento contra as eleições brasileiras.




